Quem pratica o tráfico

Não é coisa atrasada

Uma primeira falsa ideia que precisamos superar é a de que o tráfico humano é prática de pessoas e grupos econômicos atrasados. Basta ter presente o que acontece no Brasil. Quem explora pessoas na forma de escravidão? São grandes e modernas empresas; não acontece só nos rincões da Amazônia. Os dados da Comissão Pastoral da terra indicam que acontece em todas as regiões. De pouco ou nada adianta os empresários tentarem descarregar a responsabilidade nos “gatos”, que são contratadores de mão-de-obra, mesmo que eles também tenham sua parte na execução do crime.

O tráfico é organizado e alimenta um conjunto de empresas, algumas ilegais e outras não, que funcionam em rede internacional. Existem as que se especializam em fornecer documentos falsos, em prestar assessoria jurídica, em fazer a lavagem do dinheiro, em organizar o transporte. Alguns desses serviços funcionam por conta própria, tem fechada legal e são contratados para colaborar com a organização do tráfico; esta é uma das práticas que torna mais difícil o combate a este crime.

Uma coisa é certa: aventureiros não tem sucesso neste tipo de negócio. Há nele muita ilegalidade que precisa ser escondida ou ter fachada legal. E para que os bilhões de dólares arrecadados não se percam na ilegalidade, é necessária a colaboração de certas instituições financeiras, que controlam os chamados “paraíso fiscais”, para levar a origem criminosa do dinheiro, dando-lhe status de riqueza legítima. E para que uma rede dessas funcione, recolhendo dinheiro  em diferentes partes do planeta sem que seja desviado, é preciso que haja organização poderosa para lavar dinheiro em diferentes países e regiões, e contar com uma forma de controle rígida para que ninguém decida decida desgarrar-se e fazer seu próprio negócio. Para isso, funcionam serviços próprios de repressão e ordem, bem como a corrupção de corpos oficiais de segurança.

Os aliciadores

No  tráfico de pessoas, tudo se orienta para a invisibilidade. Mas há um tipo de agente que é fundamental para isso: o aliciador. Na maioria dos casos, são pessoas que participam vida social das famílias e das pessoas  que são atraídas e envolvidas na rede do tráfico. Cabe a elas fazer os convites tentadores às  pessoas, oferecendo oportunidades de trabalho com alta remuneração, de entrada para o mundo dos modelos de grandes marcas, de tornar-se artista em diferente áreas, de modo especial na dança. Cabe a elas envolver pessoas nessas expectativas de melhoria rápida das condições de vida.

Por isso, as pessoas entram nas redes do tráfico sempre enganadas, iludidas por promessas. As famílias, que normalmente vivem em situações econômicas precária, são envolvidas pela promessa de que os ganhos pelos trabalhos que as filhas ou filhos farão poderão melhorar a situação de toda a família.

Em outras palavras, na sua origem, não há nada que se pareça com tráfico. A única porta que poderia gerar desconfiança é a facilidade de recursos que os aliciadores têm para encaminhar os documentos necessários para aproveitar as oportunidades. No mais, os aliciadores funcionam perfeitamente para dar ao tráfico a invisibilidade de que necessita.

O trabalho dos aliciadores é complementado, quando necessário, pelos transportadores dos aliciados. Podem ser donos de barcos, de caminhões ou até de aviões, que ganham levando ao destino os candidatos à escravidão. Podem ser “gatos”, isto é, contadores e transportadores de pessoas empobrecidas para serem submetidas a condições de trabalho escravo nas terras ou oficinas dos patrões, que os contratam e pagam.

Os Serviços de segurança e de defesa

Tanto dentro de cada país como fora deles, a imposição dos trabalhos que interessam aos donos das redes de tráfico exigem que as pessoas atraídas sejam isoladas, mantidas em cativeiro, impedidas de se comunicarem com quem quer que seja. Para que isso funcione, o tráfico conta com seus seguranças. Devem ser pessoas com capacidades de aparentarem relações normais no ambiente em que vivem, e com frieza e dureza suficiente para garantir que o negócio prospere. Se necessário, o ponto final da violência cotidiana de escravidão é o desaparecimento  e mesmo o assassinato dos que se revoltam e não se submetem.

O serviço de segurança funciona para proteger todos os envolvidos na rede do tráfico: dos donos, envolvidos em grande festas e autoritários, aos aliciadores, quando, por algum motivo, se tornam suspeitos de serem agentes de práticas criminosas.

Evidentemente, com eles agem, por um lado, agentes oficiais locais corrompidos, e, por outro, advogados necessários para defender quem for preso em suas atividades. Como o sistema do tráfico é geneticamente corruptor, não é difícil entender que ele só se sustenta e prospera por meio da corrupção de pessoas e instituições.

A lavanderia

Um instrumento essencial nessa rede é o capital financeiro. Por meio dele agem diferentes atores, que negociam e especulam com dinheiro e título. Como não e apenas empresa legalizada, e sim parte do setor, que domina as sociedades, especialmente a partir da globalização neoliberal capitalista, ele age de forma invisível. Cabe-lhe, porém, a tarefa sem a qual a rede de tráfico não se sustentaria e não cresceria: fazer que o dinheiro sujo, imoral, ilegal e fruto da violência da escravidão se torne limpo, legal, sem qualquer marca de suas origem.

É o que fazem pessoas e instituições financeiras que cooperam com o tráfico de pessoas. Essa “lavanderia” segue diferentes caminhos, sendo o mais conhecido o “paraíso fiscal”. São ilhas, ou mesmo países, em que o capital financeiro reina: não há leis e regras que  limitem suas atividades. Desses lugares o dinheiro retorna ao sistema financeiro limpo, legalizado, como se sua origem não fosse um crime, como o tráfico humano.

Estes são os participantes das redes e sistemas de tráfico que mais ganham, mas que são mais difíceis de responsabilizar. São os que se escondem atrás de cortinas de legalidade e de poder nas sociedades comandadas pelo capital. Mas, para abolir o tráfico, é preciso chegar até eles e incriminá-los por sua participação nesse crime.

Para aprofundar pessoalmente e com a comunidade

1. Por que o tráfico de pessoas é invisível? Quem colabora para isso, e como?

2. Quem ganha mais, tem mais poder e é mais responsável pelo crime do tráfico?

3. Que cuidados a família e a comunidade devem ter um relação ao risco do tráfico?

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