O Sofrimento das Pessoas Traficadas

A pessoa envolvida pelo tráfico vive e sofre uma experiência difícil de ser descrita. É como a fome: só conhece mesmo quem a experimenta. De toda maneira, vamos lembrar alguns tons dessa experiência descolorida.

Ser pessoa enganada

 A entrada da pessoa nas relações  de exploração do tráfico se dá pela descoberta, já tardia, de ter sido iludida, enganada. E não um engano qualquer. Trata-se ir de uma promessa e de um sonho de vencer na vida, por meio de atividades de valor e em liberdade, para a realidade de uma prisão coletiva. Nasce daí um dos trunfos com que conta a rede do tráfico: a vergonha de falar sobre o que aconteceu: a pessoa prefere, até por um resto de amor próprio, não falar com ninguém sobre o que aconteceu com ela. Isso ajuda a garantir a invisibilidade do tráfico.

Estar sem liberdade

É indescritível a experiência de ser forçado fazer o que não se quer, o que não se escolheu, o que desmoraliza. Dignidade ferida: essa é a sensação. Inicialmente, isso gera revolta, desejo de enfrentar, de força a libertação. Em seguida, e como resultado da repressão, das ameaças e da presença ostensiva do corpo de segurança, a tomada de consciência de estar em cativeiro pode levar a uma submissão conformista, o que mais uma fez, favorece a rede do tráfico.

Isolamento

Perder o contato e ser impedido de comunicar-se com o círculo familiar e de amizades é outra experiência que enfraquece a vontade de reagir. Esta é a situação de todas as pessoas traficadas, mas vivida como trágica impotência especialmente pelos que estão submetidos a situações de trabalho iguais à escravidão. Cercados por seguranças dispostos a tudo, só lhes resta gerar alguma chance de fuga ou esperar a chegada de alguma iniciativa libertadora.

Em outras situações, de modo especial na exploração sexual, pode ser ainda pior: ser forçado a entrar em contato para dar notícias falsas, iludindo e deixando tranquilos seus familiares, sempre forçado e vigiado por seguranças armados. O isolamento aumenta, ficando a sensação de solidão, de abandono.

Prisão a uma dívida sem fim

É terrível a descoberta de que as aparentes facilidades para conseguir os documentos necessários, as passagens aéreas e a compra de roupas no início do processo de envolvimento se transformam em dívida a ser paga aos traficantes.

O pior é dar-se conta de que se trata de uma dívida sem fim. De fato, nega-se a realizar o trabalho explorador aumenta ainda mais a dívida, porque os custo da alimentação e tudo mais que seja necessário deve ser pago pela pessoa traficada. E a Submissão ao trabalho forçado também não abre esperança de superação da dívida, porque seu valor é apropriado pela rede de tráfico e descontado da dívida segundo a vontade absoluta dos traficantes.

A ameaça e a convivência com a violência e com a morte

A revolta e a indignação das pessoas traficadas levam a um recurso radical de busca da liberdade: a fuga. Raramente, contudo, essa prática alcança seu objetivo.  Quando capturadas, passam por violência, maior isolamento e submissão a controles ainda mais ameaçadores.

Muitas vezes, contudo, a fuga individual ou grupal acaba em monte de alguma ou de todas as pessoas. Como o poder das redes de tráfico corrompe o que for necessário, dificilmente essas mortes se tornam denúncia reveladora da prática de tráfico. Ou são noticiadas como fruto de acidentes ou são silenciadas.

Para as demais pessoas traficadas, essas mortes servem como “práticas educativas”: este será o destino de quem tentar o caminho da fuga! Aumenta a submissão violenta.

Para dialogar e aprofundar

1. Ficaram claros os sofrimentos das pessoas traficadas? Conhece outra situação de sofrimento?

2. O que se pode fazer preventivamente  para evitar o sofrimento das pessoas submetidas ao tráfico de pessoas?

3. O que se deve fazer para que as pessoas que sofreram no tráfico e foram libertados não sofram ainda mais por causa de preconceitos?

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