Formação para Catequistas – Lectio Divina

Papa Bento XVI, Verbum Domini

1. A palavra do senhor permanece eternamente. E esta é a palavra do Evangelho que vos foi anunciada» (1 Pd 1, 25; cf. Is 40, 8). Com esta citação da Primeira Carta de São Pedro, que retoma as palavras do profeta Isaías, vemo-nos colocados diante do mistério de Deus que Se comunica a Si mesmo por meio do dom da sua Palavra. Esta Palavra, que permanece eternamente, entrou no tempo. Deus pronunciou a sua Palavra eterna de modo humano; o seu Verbo «fez-Se carne» (Jo 1, 14). Esta é a boa nova. Este é o anúncio que atravessa os séculos, tendo chegado até aos nossos dias.

6. A novidade da revelação bíblica consiste no facto de Deus Se dar a conhecer no diálogo, que deseja ter connosco.

86. a Palavra de Deus está na base de toda a espiritualidade cristã autêntica. A Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para nos unir na Verdade no nosso caminho para Deus. Sendo uma Palavra que se dirige a cada um pessoalmente, é também uma Palavra que constrói comunidade, que constrói a Igreja.

A leitura orante pessoal e comunitária deve ser vivida sempre em relação com a celebração eucarística. Assim como a adoração eucarística prepara, acompanha e prolonga a liturgia eucarística, assim também a leitura orante pessoal e comunitária prepara, acompanha e aprofunda o que a Igreja celebra com a proclamação da Palavra no âmbito litúrgico.

Constituição Dogmática Dei Verbum

6. Pela revelação divina quis Deus manifestar e comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos da Sua vontade a respeito da salvação dos homens, «para os fazer participar dos bens divinos, que superam absolutamente a capacidade da inteligência humana»

11. As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo.

25. É necessário, por isso, que todos os clérigos e sobretudo os sacerdotes de Cristo e outros que, como os diáconos e os catequistas, se consagram legìtimamente ao ministério da palavra, mantenham um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo aturado, a fim de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da palavra de Deus. por não a ouvir de dentro»

A leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos»

Papa Francisco – A alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium )

152. Há uma modalidade concreta para escutarmos aquilo que o Senhor nos quer dizer na sua Palavra e nos deixarmos transformar pelo Espírito: designamo-la por «lectio divina».

Consiste na leitura da Palavra de Deus num tempo de oração, para lhe permitir que nos ilumine e renove.

Esta leitura orante da Bíblia não está separada do estudo que o pregador realiza para individuar a mensagem central do texto; antes pelo contrário, é dela que deve partir para procurar descobrir aquilo que essa mesma mensagem tem a dizer à sua própria vida.

153. Na presença de Deus, numa leitura tranquila do texto, é bom perguntar-se, por exemplo: «Senhor, a mim que me diz este texto? Com esta mensagem, que quereis mudar na minha vida? Que é que me dá fastídio neste texto? Porque é que isto não me interessa?»; ou então: «De que gosto? Em que me estimula esta Palavra? Que me atrai? E porque me atrai?».

Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. Uma delas é simplesmente sentir-se chateado e acabrunhado e dar tudo por encerrado; outra tentação muito comum é começar a pensar naquilo que o texto diz aos outros, para evitar de o aplicar à própria vida.

Acontece também começar a procurar desculpas, que nos permitam diluir a mensagem específica do texto. Outras vezes pensamos que Deus nos exige uma decisão demasiado grande, que ainda não estamos em condições de tomar. Isto leva muitas pessoas a perderem a alegria do encontro com a Palavra, mas isso significaria esquecer que ninguém é mais paciente do que Deus Pai, ninguém compreende e sabe esperar como Ele.

Deus convida sempre a dar um passo mais, mas não exige uma resposta completa, se ainda não percorremos o caminho que a torna possível. Apenas quer que olhemos com sinceridade a nossa vida e a apresentemos sem fingimento diante dos seus olhos, que estejamos dispostos a continuar a crescer, e peçamos a Ele o que ainda não podemos conseguir.

149. O pregador «deve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o coração dócil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade»

 

A Lectio Divina

É uma prática muito antiga na Igreja, mas que ficou por muito tempo desconhecida pelos cristãos.

Com o Concílio Vaticano II sua prática foi incentivada tanto individual quanto comunitariamente.

Trata-se de uma reflexão sobre um trecho da Bíblia e, em geral, pode-se fazê-la sobre as leituras da liturgia do dia, conforme as circunstâncias ou preferências.

É constituída basicamente de quatro passos:

Leitura: Leitura do texto: leitura atenta e descompromissada com encontrar verdades, descobrir a teologia.

Meditação: Meditar o texto: depois da leitura, repetir constantemente o versículo que mais chamou a atenção. Repetir sem parar até que ele produza seu efeito. Ruminar significa mastigar novamente: ruminar a palavra recebida, devagar e sem pressa.

Oração: Rezar o texto: após a ruminação da palavra, qual oração lhe é inspirada? O que o diz motiva a rezar?

Contemplação: Contemplar o texto: essa contemplação não é uma experiência misteriosa, de santidade evidente: não sairão raios de você e nem mesmo levitará. Essa contemplação pode ser descrita como uma simples presença: aproveitar que estou na presença de Deus, com a Sua Palavra. Dessa presença uma atitude, uma ação nascerá, ou será escolhida como proposta de conversão.

lectio divina

Algumas observações para a oração:

Reserve um tempo para a sua oração.

Escolha um local adequado: não queira realizar a lectio enquanto faz a comida ou lava a roupa. Lembre-se: ainda não colhemos bananas em pés de mangas.

Não inicie a lectio divina como se fosse fazer um trabalho, um serviço, uma atividade: a lectio é um ENCONTRO.

Escolha uma boa postura corporal: Santo Inácio de Loyola dizia que a postura corporal é o primeiro passo para uma boa oração.

Não escolha textos “difíceis” como o número da contagem das tribos da Israel, ou detalhes da construção do templo…

Lembre-se sempre: a lectio não é uma regra, é um ENCONTRO.

Deixe uma resposta