Deus é contra todo tipo de tráfico

Por sermos Povo de Deus, somos portadores da memória de que Ele condena toda prática humana que explora, oprime, escraviza  eleva à morte antes do tempo de algum de seus filhos e filhas. Sempre que humanos, por mais que contem com leis feitas por eles como justificativa, praticam, mantêm e aprofundam relações de injustiça, Deus se coloca ao lado dos injustiçados. Por isso, blasfemam o nome e provocam  a ira de Deus todos os que, de alguma forma, fazem parte das redes de  tráfico de pessoas, e, de modo especial, quem comanda e quem acumula ganhos com essa prática negadora da dignidade humana.

Destaquemos dois grandes acontecimento histórico de que somos memória perigosa: a ação de Deus ao Lado do povo escravizado no Egito dos Faraós e a ação de Deus nas práticas de Jesus de Nazaré.

Deus Libertador

Ouvi os clamores e vou descer para libertá-lo. É esta a noticia central da memória da descoberta que os povos de Israel fizeram de quem é e o que deseja seu Deus para seus filhos e filhas. Ele não se contenta em condenar com a palavra. Ele dialoga, desperta vocações, desafia e estimula o povo a agir, fazendo todo o possível para que os escravizadores se deem conta do absurdo de suas práticas. Por Fim, força a libertação, penalizando os que insistem em manter seu poder e riqueza por meio da exploração absoluta de pessoas, destacando o Faraó e seus carros de guerra e cavaleiros.

Não é um Deus indiferente; ele entra nos conflitos ao lado dos injustiçados, seja de que forma for. Ele não o faz porque este povo, ou esta comunidade ou pessoa, é perfeito, santo. Ele o faz porque sempre ouve os clamores de quem sofre por exploração no trabalho por escravidão, por opressão, por tráfico humano.

Na memória de libertação dos opressores do Egito, Deus ouvi os clamores (cf. Ex 3,7-8). Isso indica que havia clamores, havia pessoas, grupos e comunidades que não se submeteram às imposições, proibições, violências, discriminações do Faraó e seu povo. Ao contrário, mulheres reagiam à proibição de gerar novos filhos e encontraram formas criativas de salvar seu filhos (cf. Ex 1,17-21). Um deles terminou sendo recolhido, como brincadeira e com algum sentimento  de humanidade, pelas filhas do Faraó. Foi criado na casa poderosa e, quando adulto, sentiu renascer nele os valores da cultura de seu povo de origem e defendeu, enfrentando a violência do representante das elites egípcias, seu irmão israelita oprimido (cf. Ex 2,11-14). Depois de viver um tempo no campo, escondido, sentiu-se convocado por Deus a assumir a missão de organizar seu povo para enfrentar e libertar-se da opressão do Faraó (cf. Ex 3).

Uma vez libertado, não significa que o povo permaneça fiel ao que deseja o seu Deus. Sempre que entra em infidelidade, Deus adverte, lembra os compromissos da Aliança, recorda que pode ser oprimido mais uma vez por algum povo poderoso, e o faz por meio das mensagens dos profetas, das comunidades de profetas. São pessoas que procuram manter-se fiéis à Aliança assumida com Deus, que analisam as práticas do governantes e dos membros do povo, denunciam as infidelidades e convocam a voltar à felicidade como povo. Estimulam a celebrar o Jubileu, voltando atrás em todas as práticas que geram desigualdades, exploração, servidão, venda de filhas e filhos para sobreviver, tendo como meta retomar o jeito se ser povo que agrada a Deus (cf. Lv 4).

Para o Senhor Deus, se as desigualdades e a exploração praticada por algum membro do povo não são superadas a cada sete dias, no Sábado do Senhor, nem a cada ano, que o faça de forma mais radical a cada 50 anos, no grande Jubileu.  Importante é que o povo não minta quando se diz Povo de Deus. É assim que se vive de forma renovada a Páscoa,a passagem da escravidão para a terra da liberdade que o povo realizou com presença libertadora de Deus.

Jesus e o tráfico de pessoas

Na prática e na mensagem da missão de Jesus de Nazaré, a libertação é uma dimensão central e é a boa noticia aos pobres: libertar os oprimidos, quebrar os grilhões dos que estão presos, abrir os olhos de quem está cego – e podemos, com certeza, acrescentar: libertar os aprisionados e explorados pelo tráfico de pessoas. A meta, utópica no sentido de ser um ideal que atrai e mobiliza, é a construção de um “tempo de graças do Senhor” (cf. Lc 4,18-19). É o tempo em que  a humanidade estará colocando em prática o Jubileu, estará mais próxima do Reino de Deus, a grande paixão de Jesus . Nas comunidades, nos povos, nas igrejas engravidadas pelo Reino, não pode haver nenhum tipo de exploração, de escravidão, de opressão, de tráfico. A busca comum é que todas as pessoas tenham vida em abundância, em plenitude (cf. Jo 10,10).

Podemos imaginar o sofrimento de Jesus em relação à realidade da vida do povo de seu tempo, de modo especial a partir de sua opção de realizar sua missão na tradição dos profetas populares, na perspectiva do messias pobre, frágil, sem poder individual, mais parecido com os sofredores do povo do que com os poderosos. A construção do Reino, que exige mudanças profundas e estruturais do modo como estava organizada a vida em sociedade, submetida à violência de um império estrangeiro militarizado, só aconteceria a partir da ação dos empobrecidos em processo de libertação.  É para que isso aconteça que, a partir da parceria do Espírito de Deus com Jesus e seus seguidores  e seguidoras, ele sinalizará o caminho a ser percorrido.

  • anunciando boas notícias aos empobrecidos;
  • libertando dos preconceitos e da marginalização as portadoras e os portadores de diferentes tipos de doenças;
  • resgatando a dignidade das pessoas, de modo especial a das mulheres, discriminadas por sua sexualidade, submetidas a regras de purificação de todo tipo;
  • valorizando o trabalho por meio de sua relação com a vida, defendendo o direito de todos a ele;
  • acolhendo as crianças por serem crianças, responsabilizando quem as escandaliza;
  • testemunhando que a vida é o valor absoluto: vale dar a vida por amor às pessoas assumidas como próximo. Não importa quem seja o “samaritano”, seja um individuo ou uma coletividade, só de praticar os socorros possíveis, de gerar parcerias em vista de recuperação das condições de agir como pessoas e cidadã (cf. Lc 10,29-36).
  • organizando comunidades de seguidores que assumam seus critérios e metodologia de ação: em que todos e todas sejam irmãos e irmãs; em que se coloque tudo que se recebeu de Deus e das gerações humanas em comum, sem guardar segredos que geram poderes que dividem; em que se busque e testemunhe a unidade a serviço da vida; em que se reparta o pão, tanto no sentido de celebrar todo o tempo a presença de Jesus como na direção de que não haja necessitados entre seus membros (cf. At 2,42-47).

Para aprofundar pessoalmente e com a comunidade

1. A mensagem de Deus Libertador do povo escravizado faz parte das motivações para a ação das comunidades cristãs contra o tráfico de pessoas? Em que esta memória pode ajudar?

2. Nossas comunidades são radicais defensoras da vida e denunciadora de tudo que a ameaça?

3. O que podemos fazer para que nossa comunidade seja mais afetiva no trabalho preventivo em relação ao tráfico de pessoas?

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